
A Volkswagen, um símbolo da engenharia alemã, enfrenta talvez o maior desafio de sua história, vendo seu valor de mercado despencar para níveis não vistos desde o pós-crise financeira de 2008 ou o escândalo das emissões da VW em 2015.
A administração precisa encontrar bilhões em economias de custos para estabilizar o negócio e está rompendo com suas regras tradicionais para consegui-los.
Ao considerar o fechamento de fábricas na Alemanha pela primeira vez em seus 87 anos de história, a empresa se colocou contra sua enorme força de trabalho e os órgãos governamentais de cidades construídas ao redor de suas indústrias.
O movimento deixou muitos se questionando: será que a VW perdeu o seu rumo?
Primeiro, um pouco de contexto
Os carros são parte essencial da identidade econômica e industrial moderna da Alemanha, e o grupo VW personifica isso em escala global ao empregar 680 mil pessoas e ter dezenas de locais de produção.
A empresa é proprietária de várias marcas conhecidas, algumas voltadas para famílias com grande poder aquisitivo, como Porsche e Lamborghini, enquanto outras atendem ao seu público-alvo principal, como a Škoda.
Seu nome significa “Carro do Povo”, e a empresa foi criada em 1937 com o objetivo de produzir veículos que todos os alemães pudessem comprar. Em 1955, houve uma grande celebração para marcar o milionésimo “People’s Car”, o Fusca, desde a guerra.
Décadas depois, em 2023, o portfólio da VW gerou € 320 bilhões em vendas, equivalente à cerca de 7,5% do PIB da Alemanha naquele ano. Mas então o que está dando errado?
Carros elétricos: Uma dor de cabeça 
A crise atual remonta ao escândalo do diesel em 2015. Ele custou à empresa bilhões de euros entre multas, recalls e outros aspectos, além de forçar uma mudança rápida para veículos elétricos, para a qual a empresa não estava preparada.
A marca Volkswagen queria criar uma cadeia de suprimentos verticalmente integrada, e parte disso incluía construir suas próprias instalações de fabricação de baterias e uma unidade de software interna.
Acontece que criar software é muito diferente de produzir carros. A Tesla, por exemplo, está bem à frente porque se destaca em todas as três áreas: baterias, veículos e software.
Na era dos motores a combustão, a empresa ainda conseguia fabricar veículos que as pessoas queriam. Com a transição para EVs, ela não está conseguindo confeccionar algo que as pessoas desejam ou têm condições de comprar.
Um reflexo desse obstáculo enfrentado pela maior montadora da Alemanha — junto à remoção dos incentivos do governo em 2023 — foi a queda de 69% nas vendas de veículos elétricos no país em agosto.

No século 21, a leitura de muitos é que falta à marca Volkswagen — e ao grupo em sua totalidade — um “Carro do Povo” elétrico para estimular a adoção de EVs na Alemanha. O que nos leva a outro grande problema… A China.
Basta observar a composição do mercado de EVs no país. As montadoras chinesas ganharam uma fatia considerável, enquanto marcas alemãs, incluindo as do grupo Volkswagen, não figuram no TOP-5.
Fora isso, as marcas chinesas têm aumentado sua presença na Europa, o que levou a Comissão Europeia a aumentar as tarifas sobre veículos elétricos fabricados no país asiático que podem chegar até 45,3%.
A batalha contra sua força de trabalho 
A administração da marca Volkswagen declarou que até 3 das 10 fábricas que ela possui na Alemanha podem estar em risco de fechamento ou reestruturação.
A pressão sobre sua força de trabalho é sentida intensamente em Wolfsburg, local da primeira fábrica da empresa. Caso deixasse de existir por lá, a cidade também desapareceria. E na Alemanha, neste ponto, há menos empregos estáveis do que antes.

Na prática, perder um emprego na linha de montagem da VW significa perder um trabalho bem pago na classe média e de colarinho azul. Hoje, há cerca de 140.000 funcionários alemães na marca.
Um possível componente de uma VW reestruturada é dar uma nova vida às fábricas. Há precedentes de venda de uma unidade para outra montadora ou para outra empresa, garantindo que os empregos sejam preservados.
No entanto, se isso se concretizar, a Alemanha poderia ter que lidar com uma ironia problemática: um dos compradores mais prováveis de qualquer planta da Volkswagen seria um fabricante chinês.
Looking forward: A reestruturação da Volkswagen está sendo liderada por Oliver Blume, CEO do grupo, que tem enfrentado fortes críticas, especialmente devido às negociações tensas com sindicatos e o impacto político das decisões sobre fábricas.
Nessa segunda-feira, cerca de 100 mil trabalhadores da Volkswagen na Alemanha fizeram a maior greve desde 2018. A tensão parece longe de acabar…